Dura
aldeia era aquela, em que às mulheres não era permitido comer carne de aves –
não fossem as asas subir-lhes ao pensamento. Dura aldeia era aquela em que,
apesar da proibição, voltando da caça ao final da tarde e sem nada mais ter
conseguido abater, o marido entregou à mulher uma ave, para que a depenasse e a
cozesse e fosse alimento para ambos.
E
assim a mulher fez, metendo os dedos por entre as penas ainda brilhantes,
arrancando-as aos punhados, e entregando à água e ao fogo aquele corpo agora
morto, que a fogo e água nunca havia pertencido, mas sim ao ar e à terra.
Tivesse
olhado para o alto por um minuto, tivesse detido por um instante sua tarefa e
levantado o olhar, e teria visto pela janela bandos daquelas mesmas aves
migrando rumo ao Sul. Mas a mulher só olhava para as coisas quando precisava
olhá-las. E não precisando olhar o céu, não ergueu a cabeça.
Cozida
a carne da ave, regalou-se, engolindo os bocados sem quase mastigar, firmou os
dentes nos ossos, sugou o tutano. O marido não. Repugnou-lhe a carne tão
escura. Limitou-se a molhar o pão no caldo, maldizendo sua pouca sorte de
caçador.
Passados
dias, a mulher nem mais se lembrava do seu raro banquete. Outras carnes assavam
e eram ensopadas na cozinha daquela casa, na cozinha que era quase toda a casa.
Mas
uma inquietação nova começou a tomá-la. Interrompia seus afazeres de repente,
como nunca havia feito. Paradas breves, quase nada. Um suspender do queixo, um vibrar de
pestanas. Um alerta. Resposta do corpo a algum chamado que ela sequer ouvia. A
agulha ficava parada no ar, a colher suspensa sobre a panela, as mãos metidas
na tina. E a cabeça, cabeça agora que se movia com a delicadeza que só um
pescoço mais longo poderia lhe dar, espetava o ar.
A
mulher olhava então para aquilo de que não precisava. E olhava como se
precisasse.
Só
por instantes, a princípio. Em seguida, um pouco mais.
Demorando-se,
olhou primeiro adiante. Adiante de si. E adiante daquilo que tinha diante de
si. Por uns tempos pousando o olhar nos móveis, nos poucos móveis daquela casa
e nos objetos em cima deles. Depois varando-os, varando as paredes, olhou para
a distância em linha reta. O que via, não dizia. Olhava, sacudia num gesto
suave a cabeça. E tornava a abaixá-la. A agulha descia, a colher mergulhava na
panela, as mãos afundavam na tina.
Talvez
levada por aquele breve sacudir de cabeça, começou a olhar para os lados.
Olhava para o lado esquerdo, demorava-se, imóvel. E, súbita, voltava-se para o
lado direito.
Ninguém
lhe perguntava o que estava olhando. O único olhar que nela parecia importar
para os outros ainda era o antigo, de quando só olhava o que era necessário.
E
assim um dia aquela mulher para a qual ninguém olhava olhou o céu. Sem que
tivesse chovido ou fosse chover. Sem que houvesse relâmpagos. Sem que sequer
houvesse nuvens ou o tempo fosse mudar, ela olhou o céu.
Delicado fazia-se seu pescoço
agora que o movimento ligeiro conduzindo a cabeça nas suas perscrutações. Era
um pescoço pálido, protegido da luz por tantos anos de cabeça baixa. E sobre esse
pescoço a cabeça como que se estendia olhando para cima, com a mesma reta
intensidade com que havia começado varando as paredes.
Olhava,
pois para o alto, quando um bando das aves passou sobre a casa rumo ao Sul.
Há
muito as folhas haviam-se banhado de cobre, o solo começava a fazer-se duro no
frio. E as aves de carne escura seguiam no céu em direção ao sol.
De
pé, a mulher olhava. E continuou olhando até que as aves empalideceram na
distância.
O
vento batia os longos panos da sua saia, estalava as asas franjadas do seu
xale. Não, ela não voou. E como poderia? Saiu andando, apenas. Escura como a
tarde, acompanhando o seu próprio olhar, saiu andando para a frente, sempre
para a frente, rumo ao Sul.
COLASANTI,
M. Sem asas, porém... In: Longe como o meu querer. 3.ed.
São Paulo: Ática, 2002, p. 57-59.
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