"...só viram os que levantaram para trabalhar no alvorecer que foi surgindo..."

quinta-feira, 14 de julho de 2011

As lições que a vida nos ensina


Há algum tempo atrás, os médicos, ou melhor, os boticários, iam de casa em casa e tratavam as pessoas pesquisando seus sintomas, sondando o modo de vida,   perguntando sobre sua alimentação, sobre a cor das fezes, urina...olhavam os olhos , auscultavam o coração, pulmões e principalmente , escutavam os pacientes com suas dores físicas , emocionais ou espirituais.Os recursos técnicos , mecânicos eram escassos ,e muitas vezes o resultado do tratamento não era o esperado devido a carência de recursos.O tempo passou, a ciência evoluiu , os recursos são vários; a tecnologia avançada permite hoje salvar vidas , aumentar a expectativa de vida , diminuir o sofrimento de muitos, porém o que se ganha em tecnologia, se perde em HUMANIZAÇÃO...

É comum ouvirmos queixas de pessoas que dizem que alguns médicos mal olham no paciente e já saem fazendo a receita. Com a ciência CARTESIANA, como os ESPECIALIZAÇÕES ,o mundo MODERNO, e a conseqüente RAPIDEZ , muitos profissionais da saúde focam a doença, o órgão adoecido e esquecem a pessoa, não olham nos olhos , não mais sondam o modo de vida , nem inquirem sobre fezes , urinas...mal ESCUTAM o paciente. Diante de tanta tecnologia preenchem logo uma seqüência de pedidos de exames. As “máquinas” dirão o que o sujeito tem.

Muitos fazem dos diagnósticos dos exames, a VERDADE  suprema e desconsideram tudo o que o paciente relata, ou aproveitam a normose de achar que todas que sofrem com sintomas que não são detectados através de exames, tem DEPRESSÃO. Tornamos-nos vítimas desse pragmatismo médico!

Há menos de um mês vivenciamos esta experiência. Um problema de saúde com a nossa mãe foi tratado durante sete meses, como gastrite e depressão por alguns especialistas. Os exames foram o referencial  em que se basearam para os diagnósticos e acompanhamentos periódicos. Nossa mãe já fazia acompanhamento com oncologista por ter vencido um câncer de mama, porém, apesar das visitas periódicas e das descrições em relação aos sintomas que vinha sentindo, a volta do câncer fora descartado, baseado nas evidências dos exames e não das queixas de nossa mãe, a especialista diagnosticou que ela estava com depressão e anorexia, encaminhando-a ao psiquiatra. Vale neste momento ressaltar que as evidências de que alguma coisa não ia bem eram visíveis, nossa mãe emagreceu escandalosamente, sentia dores abdominais, mal alimentava, sentia uma fraqueza enorme. Em um curto espaço de tempo, entre junho e julho nossa mãe exauriu-se e mesmo diante da nossa insistência, para que algo fosse feito, a especialista teimava em afirmar que os exames que detectavam metástase, tiveram resultados negativos. Segundo ela,  o mal que acometia nossa mãe era depressão e que não havia nada a fazer, pois, nossa mãe havia desistido de viver.


Infelizmente o quadro de saúde da nossa mãe piorou, tivemos que interna-la às pressas e em menos de uma hora, com um simples exame clínico, o médico que a atendeu, sentiu a presença de tumor na região abdominal, confirmado por ultra – sonografia, TUMOR NO  RETROPERITÔNIO; todos os diagnósticos anteriores estavam errados e minha mãe que durante sete meses lutou bravamente contra as dores abdominais, teve seu mal diagnosticado, estava em estágio terminal , foi direto para o balão de oxigênio , sonda colocada e todos os procedimentos no sentido de diminuir seu sofrimento.Cinco dias depois nossa mãe falecia de NEOPLASIA ABDOMINAL.

INDIGNAÇÃO!  Este é o sentimento que nos envolve e nos paralisa. Em função deste pragmatismo médico, desta ciência cartesiana, onde os resultados falam mais alto do que os sintomas relatados pela paciente, tivemos a vida de uma pessoa, uma mulher ceifada. Ainda  que o tumor fosse “incurável”, todo o encaminhamento do tratamento teria sido outro rumo se diagnosticado corretamente, se nossa mãe não tivesse tido suas queixas ignoradas pela profissional. Foi um grave equívoco!

Esta sendo doloroso demais, mas estamos aprendendo mais esta lição da vida. Ao compartilharmos nossa experiência, fazemos no sentido de alerta às milhares de mulheres e homens que são acometidas por doenças como esta e aos profissionais de saúde. Os avanços tecnológicos são fundamentais para a cura de muitos males, mas é imprescindível que venham aliados a profissionais que não percam de vista o referencial “humanismo”, do contrário, os avanços não terão significado, e, assim como nós, muitas pessoas poderão ter a infelicidade de conviver com esta dor que poderia ter sido evitada.

                                                                                                                                Agosto de 2008.
                                                                            Ivone Cunha Teixeira – Arteterapeuta
e Geralda Ferraz
– Especialista em Comunicação Pública

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